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2018: o que podemos fazer por nós enquanto cidadãos, comunidades, regiões, país?

Terça-feira, 02.01.18

 

 

Começo por esclarecer que não estou a dizer o que podemos fazer pelo país político, frase primeiro ouvida a Kennedy (what you can do for your country) e posteriormente adoptada por outros políticos :) É a frase que coloca jovens militares em guerras imorais destruindo gerações, é a frase que inspira ao sacrifício pessoal por interesses obscuros, é a frase que desresponsabiliza governos e políticos de fazerem o que deveriam pelos cidadãos. Não sei se era essa a perspectiva de Kennedy que nem foi um Presidente bélico, mas é assim que é interpretada e utilizada pelos políticos. 

A minha sugestão vai precisamente no sentido contrário: tendo nós já verificado (e ando a dizê-lo há 10 anos) que os sucessivos governos desde o governo socrático, passando pelo governo-troika, e este socialista actual, negligenciaram o seu dever e responsabilidade mais básicos, é tempo de tratarmos uns dos outros como cidadãos, comunidades, regiões, país.

A minha sugestão é a da participação cívica. De certo modo, já iniciada como um movimento ainda não organizado. Lembremos o 15 de Setembro, petições várias, encontros nos centros de algumas cidades depois dos incêndios e, mais recentemente, a iniciativa da Associação Tranaparência e Integridade sobre a proposta de lei do financiamento dos partidos.

 

Como cidadãos, podemos reclamar um governo responsável que finalmente coloque os cidadãos, as comunidades, as regiões e o país à frente de interesses oportunistas, de rampa de lançamento para políticos em Bruxelas (Sampaio lançou Barroso, Sócrates lançou Constâncio, Costa lançou Centeno, as nossas stars na Europa :) Barroso, depois da Cimeira das Lajes que anunciou a guerra ilegal do Iraque, e 20 anos à frente da CE, foi terminar a sua carreira no Goldman Sachs. Constâncio, depois de vários anos à frente do Banco de Portugal em que situou o défice de Santana Lopes em 6,83 e falhou clamorosamente na supervisão bancária, foi catapultado para o BCE. Centeno foi premiado com a presidência do Eurogrupo por ter ido além das regras europeias pelo défice e pela dívida, como mais um "bom aluno" de Bruxelas, cativando as vidas de cidadãos, comunidades, regiões e país.

As nossas stars europeias não nos podem animar, entusiasmar ou sequer inspirar. Trata-se de uma vaidade humana que nos ilude, tal como a frase de Kennedy interpretada pelos políticos. A cultura do orgulho nacional é obsoleta, já não move ninguém que goste de si próprio, dos outros e da vida. Porquê?

Porque o orgulho, que incha os políticos e outras pessoas pueris ou imaturas, é apenas o reverso da vergonha. Apelar ao orgulho de si próprio, de outros, de um grupo, de uma equipa, ou de um país, é apenas compensar o sentimento mais destrutivo de todos: a vergonha.

 

Quando conseguimos terminar uma tarefa difícil, ou encestar no basket, ou enfrentar alguém que tinha um ascendente sobre nós, ou tomar uma decisão seguindo a nossa consciência, sentimo-nos bem, felizes, confortados, tranquilos.

Quando alguém de quem gostamos consegue aquilo que deseja, ultrapassar obstáculos, organizar a sua vida de forma autónoma, encontrar a estabilidade afectiva ou ver o seu trabalho reconhecido, sentimo-nos felizes por ele ou com ele.

E o mesmo para pais e filhos, onde ouço muitas vezes a palavra orgulho de ti em vez de felicidade por ou com. Os pais podem não se aperceber, mas seria muito mais saudável dizer a um filho: sinto-me feliz por ti ou sinto-me feliz contigo, do que sinto-me orgulhoso de ti.

 

2018 traz-nos grandes desafios:

- não podendo confiar neste governo em áreas fundamentais como a prevenção, a segurança, a protecção civil, a justiça, a agricultura, o ambiente, o que podemos fazer para prevenir situações de risco, na floresta e nas estradas, em termos ambientais, na utilização da água, etc.?

- mas não esquecer a saúde e o SNS, e a educação, áreas essenciais para os cidadãos.

 

O que nos pode ajudar?

- uma conjuntura política e económica favorável: isto está fora do nosso controle. E é aqui que Centeno no Eurogrupo vai complicar ainda mais as coisas, ao implicar um reforço do papel de "bom aluno", um exemplo para os outros países da zona euro.

- a economia vai ser condicionada de forma ainda mais apertada com Centeno no Eurogrupo e o PS a governar. Também aqui os cidadãos podem ter uma voz organizada de forma a defender o seu espaço-tempo e a resgatar o seu futuro.

- as eleições directas no PSD: a escolha do próximo presidente do PSD pode não parecer fundamental para todos nós, mas é. Trata-se muito provavelmente do próximo PM. Além disso, a AR precisa de um reequilíbrio: o PS inchou de orgulho com o défice, a dívida, os números do crescimento, o rating, as sondagens, e Centeno no Eurogrupo. E já delira com a maioria absoluta. É por isso que é importante ajudar a clarificar o que significa para nós a escolha por um ou por outro dos candidatos. Daqui a 2 dias temos o primeiro debate. Estejamos atentos, pois.

 

Como manter a nossa capacidade de observação e análise, e autonomia de pensamento?

- não nos deixarmos influenciar pelos media, jornalistas, comentadores, comentadores-deputados e políticos em geral. Um dos comentários mais estranhos e perversos que eu já ouvi na minha vida foi, na sequência dos incêndios e das tragédias, e sobre a reacção dos cidadãos em relação ao governo, alguém dizer num canal televisivo que os portugueses são bipolares, isto é, variam entre a euforia e a depressão. A verdade é que a depressão foi a reacção normal face às tragédias. Quem não sentiu uma tristeza e revolta com o que aconteceu é que revela incapacidade de empatia com o sofrimento de outros.

- não nos deixarmos distrair com manobras de diversão. O PS é profissional nessa arte: anúncios espectaculares, sucessos nisto e naquilo, o país está na moda, ou então, as rasteiras a adversários políticos, ou palavras que lhes querem colar (ex: "trapalhadas" no tempo do governo de Santana Lopes), ou armadilhas em que os querem colocar. Sempre que se sentirem acossados ou a perder o pé, vão inventar situações comprometedoras. E todos sabemos como a informação pode ser manipulada e levar a equívocos graves.

 

Estou a preparar uma análise dos perfis dos candidatos à presidência do PSD, só me falta juntar o puzzle. Nos pormenores em que ninguém repara é que está a chave da solução que será melhor para todos nós. Só vou adiantar isto: é verdade que a personalidade os distingue e que essa distinção é mesmo importante. É verdade que há perfis que se adaptam aos desafios do séc. XXI e há perfis que não. É verdade que hoje já não se pode governar sozinho e controlar tudo, mas ter uma equipa coesa, organizada, competente, o que exige uma capacidade de interacção social e de inteligência emocional fora do comum. Além disso, hoje é impensável um governante não estar receptivo à participação cívica. E mais do que estar receptivo, apelar à participação cívica e ajudar a mobilizá-la.

Se assistirem ao primeiro debate tendo esta perspectiva em consideração, verão mais claramente quem escolheriam para potencial próximo PM. 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 14:39

Reflexões de fim de ano: temos de ser nós, cidadãos, a resgatar o futuro

Domingo, 31.12.17

 

 

Só podemos identificar o que podemos mudar e o que podemos melhorar na nossa vida, fazendo um balanço do ano que passou. A mudança e a melhoria vão depender dessa consciência.

A consciência humana é um universo complexo, tem a ver com o tempo e com as experiências. Mas também tem a ver com a atenção, a observação, a reflexão, a responsabilidade. Qualidades que hoje não são valorizadas :) Hoje o que conta é o que é visível, rápido, superficial e, se possível, tiver impacto.

 

Consciência, tempo e experiências: estou a utilizar consciência na sua dimensão mais ampla, não apenas o estado de alerta, o estado de vigília.

O tempo permite-nos distinguir experiências, a noção de causa e efeito, num determinado espaço. 

As experiências que no início são sensações agradáveis ou desagradáveis, começam a ligar-se às interacções com os mais próximos. A partir de certa altura alargar-se-ão a outros menos próximos. A qualidade dessas interacções pode determinar a nossa perspectiva da vida e do mundo, e o nosso próprio percurso.

 

A certa altura do nosso percurso, e se tivermos sorte, começamos a identificar o que é real (o que tinhamos observado e qualificado) e o que é ficção (o que foi programado culturalmente). E nessa altura que percebemos que chegámos a casa, sabemos quem somos, a nossa essência, nesse espaço-tempo. A nossa consciência ganha consistência e claridade, fazemos as nossas escolhas de forma mais fácil, desenhamos o nosso futuro de forma natural.

Também sentimos que a nossa consciência se expande, o mundo, que sabemos complexo, começa a tornar-se compreensível, embora dolorosamente sofredor. O sofrimento que desejaríamos evitar já não nos deixa paralisados, dá-nos vontade de agir.

 

 

A possibilidade de prevenir situações de perigo e de sofrimento é uma das responsabilidades das lideranças políticas. Mas vemos como são elas próprias a causar instabilidade, violência e sofrimento. Estas lideranças não são apenas irresponsáveis, são o nosso pior inimigo. Digamos que podemos mesmo dizer que a maioria das lideranças políticas, a ocidente, a oriente, a norte e a sul, estão a governar contra as suas próprias populações. É triste, mas é assim. Vemos Trump criar mais instabilidade no médio oriente. Vemos Aung San Suu Kyi revelar o seu retrato Dorian Gray. Vemos o sofrimento na Síria, no Iémen, os refugiados a multiplicar-se num planeta a morrer lentamente. Sabemos que o que fizermos hoje pode determinar a possibilidade de um futuro para as próximas gerações, mas deixamos que estas lideranças políticas, económicas e financeiras destruam esse futuro à nossa frente.

 

Este ano isso ficou visível no nosso país. São dois planos paralelos que nunca se encontram: a ficção (o plano onde vive a maioria dos políticos) e a realidade (onde vive a maioria dos cidadãos). É por isso que eles não sabem lidar com a realidade, nem preveni-la, nem minimizar os danos, nem remediá-los depois. Numa linguagem mais crua, podemos mesmo dizer que privilegiam a ficção porque alimenta a sua vaidade (Eurogrupo ao serviço de Bruxelas, ratings de agências ao serviço da grande finança, sondagens com oportunidades tácticas). Claro que esta escolha (e sempre foi esta a escolha dos governos desde o socrático), faz-se sob falsos pretextos, o fim da austeridade, o equilíbrio social e a redução das desigualdades, criando equívocos com consequências terríveis.

Mas como eles nunca sentem as consequências na pele, não se espere que mudem a sua cultura política. A proposta de lei do financiamento dos partidos tira-nos qualquer réstea de ilusão. Foi assim que escolheram acabar o ano, a tratar da sua caixa registadora :)   

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:29

Com o coração nas mãos

Quinta-feira, 26.10.17

 

 

Com o coração nas mãos é como vamos todos passar estes próximos meses de um Outono com seca severa e sobretudo, sim sobretudo, a partir de Março se este governo ainda estiver no poder nessa altura.

Precisamos de estar atentos e alertas, pois não podemos contar com a competência deste governo para evitar mais tragédias nacionais, como as que vivemos este ano. Pedrógão já nos tinha deixado incrédulos e deprimidos. Mal sabíamos que ainda teríamos de ver acontecer o 15 de Outubro...

A tristeza deu lugar à revolta, não podemos deixar esquecer o que aconteceu. Saber as causas dos incêndios, tudo o que nos esconderam e que teria sido fundamental para evitar as mortes e os ferimentos de tantos, e no maior desamparo possível.

 

Como já imaginava, e não é por acaso que já não confio em comissões de investigação disto e daquilo, o relatório que foi apresentado 4 meses depois de Pedrógão e 3 dias antes de 15 de Outubro como se se tratasse do Santo Graal, tem erros e omissões graves.

Não apemas não protegem os cidadãos como não os respeitam. Não apenas omitem a verdade, como nos mentem. Mas nós não deixaremos esquecer Pedrógão. Não deixaremos esquecer o 15 de Outubro.

Não deixaremos que nos tentem apagar da memória o que aconteceu às pessoas, às suas vidas. Não nos deixaremos distrair por casos secundários de juízes culturalmente atrasados no tempo, por relatórios com informação não fiável, por debates televisivos com especialistas de duvidosa formação e isenção, por comentadores com uma agenda oculta.

E além de não esquecermos ou deixarmos esquecer Pedrógão e o 15 de Outubro, colaboraremos para evitar futuras tragédias. 

 

Para já, o CDS marcou uma posição na AR por todos nós os que gostaríamos de censurar este governo. Com o PSD ao seu lado. Já estão clarificadas as posições na AR, bem definidas e demarcadas. A partir daqui já todos sabemos quem está com as pessoas abandonadas à sua sorte e ao maior desamparo, e quem segurou este governo porque tem outras prioridades.

A cultura da esquerda que apoia este governo revelou-se como na verdade é: mesquinha e territorial, a trabalhar para o seu eleitorado. No seu pequeno mundo urbano e suburbano, industrial e empresarial, sobretudo do sector público e sindicalizado. Os outros, os que laboriosamente constroem uma vida sem as ajudas estatais, esses não contam para a sua contabilidade orçamental.

A cultura socialista é a mesma dos governos socráticos: o marketing, a arrogância, a vangloriar-se do sucesso económico e financeiro na campanha autárquica, já depois de Pedrógão. Inchados na sua cegueira depois de umas Autárquicas que apenas indicaram a confiança em candidatos a nível local. Um PM que só demitiu a ministra e o secretário de Estado depois do discurso presidencial. Um PM que só admitiu ter falhado e só pediu desculpa por essas falhas graves depois do discurso presidencial.

 

Não confiando na investigação oficial e nos relatórios de comissões chamadas independentes, o que podemos fazer na prevenção?

Estar alertas e atentos, coligir factos, cruzar dados, cada um na sua especialidade. Registar tudo. Utilizar os neurónios. Informar. Comunicar. Partilhar. As causas dos incêndios começarão a surgir em padrões temporais e espaciais, em ligações e intersecções, em coincidências. Identificáveis. 

Participar civicamente nas iniciativas e actividades da freguesia e do concelho. Manterem-se informados, sugerir, colaborar.  

Organizarem-se em grupos, associações, comunidades. No território afectado, colaborar na recuperação e regeneração. No território restante, colaborar na informação sobre riscos e formas de os evitar. Em ambos os casos, partilhar informação sobre pequenas iniciativas que todos podem passar a incluir nas suas rotinas diárias. Há a qualidade da água que pode estar afectada, por exemplo.

Não nos deixemos impressionar ou afectar pelas tentativas oficiais ou outras de nos implicarem na responsabilidade que é deles. Queimadas de agricultores? E os unúmeros fogos que se iniciaram ao fim da tarde e à noite? Proprietários que não limpam a floresta? Para já, o pinhal de Leiria é do Estado, a faixa ao longo das estradas é da EP, e outros exemplos de floresta abandonada. Tudo ardeu, floresta, pasto, árvores de fruto, oliveiras, videiras, casas, fábricas...

E finalmente não deixemos de exigir informação fidedigna e avaliação dos responsáveis.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:05

Autárquicas 2017: equívocos culturais que permanecem na política partidária nacional

Terça-feira, 19.09.17

 

 

 

Depois de ver o país três meses a arder em incêndios criminosos, as tais "ocorrências" de que nos falam na central da protecção civil e que acontecem anualmente, ou seja, um problema de segurança estatisticamente previsível, vem o PS afirmar, arrogantemente, que quer ganhar as Autárquicas.

Esta afirmação revela, pelo menos, dois equívocos culturais que iremos analisar a seguir.

 

 

Equívocos culturais que permanecem na política partidária nacional:

 

1º - As autárquicas reflectem os resultados partidários nacionais.

Este paralelismo foi-se diluindo no tempo e hoje já não é fiável. Reparem que há candidatos que antes tinham sido eleitos por um partido e agora são apoiados por outro. A referência aqui é o trabalho desenvolvido na câmara e não o partido que o apoia. O mesmo para candidatos antes eleitos por um partido que agora se apresentam de forma independente. E ainda para candidatos independentes que se apresentam apoiados por um ou mais partidos.

Os projectos são avaliados. E é por isso que em breve veremos novos rostos, mais jovens e dinâmicos, a gerir autarquias. Como referi no Twitter: "As autárquicas já não servem como referência da implantação partidária nacional. Cada concelho é um caso específico. ... Há bons projectos: desde o CDS à CDU, passando pelo PSD, BE, independentes e PAN. ..."

 

2º - As campanhas autárquicas seguem a lógica das campanhas legislativas.

Estando mais próximo das pessoas, o poder local tem uma lógica própria. É mais fácil influenciar o eleitorado. É por isso que em ano de eleições, vemos obras em tudo o que é estradas municipais, ruas, passeios, jardins e... as inevitáveis rotundas.

Nota-se, no entanto, uma mudança cultural em curso: as pessoas estão mais informadas sobre as decisões que afectam a sua vida diária e o rendimento familiar. E já não se ficam por aqui: já se preocupam com a qualidade de vida da comunidade, a protecção ambiental, uma economia mais equilibrada e sustentável, uma gestão política mais transparente e participada. As pessoas formam associações, reunem-se, debatem. São comunidades vivas a proteger os seus melhores recursos.  

Implicações políticas: se até aqui as campanhas eram clubistas e os grupos partidários se guerreavam mutuamente, esta estratégia já não tem impacto nos eleitores. Se até aqui se faziam promessas em discursos, slogans e outdoors sorridentes, hoje esta modalidade está a dar os últimos dividendos políticos.

 

 

Sendo assim, o PS está completamente equivocado, e não só duplamente equivocado (os equívocos referidos), também por um terceiro equívoco: a gestão política local não é distante e opaca como a nacional, apoia-se na vida da comunidade. Embora valorize a economia e finanças saudáveis (os trunfos actuais do governo), valoriza, acima de tudo, a segurança e a confiança. A segurança e a confiança são fundamentais para uma comunidade e baseiam-se na responsabilidade.

Foi na segurança, na confiança e na responsabilidade, que o PS falhou. Não valorizou os cidadãos o suficiente para assumir a responsabilidade pelas graves falhas na sua protecção (incêndios) e na segurança nacional (Tancos). Não valorizou os cidadãos o suficiente para demitir a ministra e a sua equipa. Não valorizou os cidadãos o suficiente para querer investigar até às últimas consequências o que se passou em Pedrógão, e depois nos concelhos afectados diariamente pela destruição criminosa dos incêndios. Não valorizou os cidadãos o suficiente para lhes dizer a verdade sobre a origem criminosa dos incêndios. E não foi só não lhes dizer a verdade, foi mentir-lhes com a versão oficial "negligência". Não valorizou os cidadãos e o país o suficiente para investigar o que se passou em Tancos. Isto somado revela a natureza descontraída do PS relativamente ao essencial e a sua obsessão pela imagem. Esta é a sua marca registada, a sua cultura de base.

 

Pode acontecer que os resultados das Autárquicas favoreçam o PS e o PSD, afinal são os partidos em que os eleitores se habituaram a votar com mais frequência. Não me parece é que isto reflicta uma tendência nacional.

  

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:24

As novas gerações e a colaboração

Terça-feira, 02.06.15

 

Ouvi recentemente Daniel Oliveira dizer, numa entrevista num telejornal matinal da SicNotícias, onde apresentava o seu livro de selecção de crónicas no Expresso, que os melhores dos melhores da nova geração são muito melhores do que os melhores dos melhores da sua geração. Concordo. E acrescento: e muito melhores do que os melhores dos melhores da minha geração. (De referir que o que captou a minha atenção para acompanhar a entrevista foi o título inspirado do livro: "A Década dos Psicopatas".)


Um simples exemplo da atitude consciente e responsável desses melhores dos melhores da nova geração verificou-se no Nepal logo após o terrível sismo. A minha frase favorita: "We had the money, two arms, one brain..." E felizmente as redes sociais responderam.

Além da consciência e responsabilidade, há neles uma frescura, uma simplicidade e autenticidade que não vejo realmente na generalidade das pessoas das gerações de 80 e 90 (considerei a década em que iniciaram a sua vida activa). 

Estas qualidades, aliadas a uma inteligência prática e à utilização das redes sociais, pode concretizar muito mais e melhor do que a ajuda oficial sujeita a atrasos por motivos tantas vezes mesquinhos. E Isto dá-nos esperança para um futuro que vislumbramos incerto.


Por coincidência, a música com que finalizou hoje o programa "O Amor é" na Antena1, vibra na mesma onda da frase que destaquei lá em cima: "... tínhamos o dinheiro, dois braços, um cérebro..."

 

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 21:26

A cultura da morte

Quinta-feira, 08.01.15

 

Vivemos num mundo estranho em que a ficção se mistura com a realidade e tudo se assemelha a um guião de um filme previamente escrito.

As populações seguem esse guião obedientemente, sem reflectir no papel que lhes e atribuído.

Para encontrarmos algum sentido, alguma lógica nas informações que vamos ouvindo e vendo, temos de estar atentos aos pequenos pormenores. Mas mesmo assim tudo nos parece irreal.


Como conciliar por exemplo:

- o jornal satírico já tinha sido vítima de um atentado à bomba e recebido várias ameaças e, por esse facto, as instalações do jornal tinham direito a guarda policial;

- o cartoonista desafia o destino com uma provocação sobre um possível atentado ainda em Janeiro;

- os serviços secretos franceses andavam a vigiar os movimentos destes dois terroristas há já algum tempo.


Apesar de nos ser dito que muitos atentados são evitados pela intervenção dos serviços policiais, a verdade é que este atentado estava já anunciado e era quase uma certeza esperada, pelo menos pelo cartoonista principal.

O que mais me incomoda é a morte dos mártires involuntários. Os mártires voluntários levam sempre atrás de si a morte evitável de outros, os que querem viver.


Neste mundo estranho vivemos o culto da cultura da morte, o fascínio pela violência, seja a das armas, seja a das palavras, seja a das imagens.

Lembro-me bem das anedotas sobre a fome em África, como se fosse tema sobre o qual é possível ironizar.

Assim como não é possível ironizar sobre o terrorismo, os fanáticos, os psicopatas.


Hoje vemos que não são os elementos supostamente mais informados e mais cultos de uma sociedade que se comportam como modelos de tolerância e democracia, mas sim as pessoas comuns, as pessoas simples.

A verdadeira cidadania implica uma responsabilidade relativamente às diferenças culturais e uma rejeição de toda a violência verbal ou comportamental.


O que está a acontecer em França lembra-me o filme Babel em que as elites sociais, as instituições, as organizações, são muitas vezes os elementos perturbadores, ao criar divisões e conflitos, enquanto as populações conseguem gerir mais facilmente as diferenças culturais.

É que afinal somos todos o reflexo uns dos outros neste multifacetado rosto humano, em que nos reconhecemos como parte de uma mesma humanidade.

 

 

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:40

A responsabilidade de um "novo rumo" tem de se iniciar com um compromisso com os cidadãos e sem equívocos políticos e culturais

Terça-feira, 21.05.13

 

A possibilidade de se abrir uma janela e de se refrescar o ar deste país entregue a grupos com agendas já identificadas e percebidas e que não servem os interesses do país e dos seus cidadãos, seria um bom sinal.

Mas seja qual for a janela e o novo ar, é bom esclarecer desde o princípio que a equipa que for escolhida (e só pode ser pelos cidadãos) estabeleça um compromisso claro com os cidadãos.

 

Já o disse aqui, nunca acreditei na revolução dos cravos, mas absorvi desde criança, e de forma profunda, uma cultura democrática. Esta é a base. Não é direita-esquerda ou falsas dicotomias. É o respeito por si próprio e pelos outros, a empatia como a base da interacção. Também tem a ver com a cultura cristã profundamente enraízada na minha família, e não apenas na palavra, mas na sua acção diária. Mas tem muito mais a ver com a minha percepção desde o início que o convívio social saudável só se pode conceber numa base de igualdade na dignidade e na liberdade, na tolerância, no respeito mútuo, no valor intrínseco e não negociável de cada vida humana. A prioridade é a vida, mas a vida com dignidade. É isso que nos distingue da barbárie.

 

Por todos os livros que li na primavera marcelista e pelo clima de rebeldia que se sentia no ar e que pensava nos poderia levar, de forma gradual, a uma democracia moderna e civilizada (nos valores que referi acima), nunca acreditei na revolução dos cravos. A minha primavera era outra, só acredito em soluções inteligentes, cultas, graduais.

Em adolescente li Marx e Engels (resumidos, porque não aprecio calhamaços), e outros livros biográficos sobre visionários, loucos e psicopatas como Estaline, Mao Tsetung, Hitler e Himmler, portanto para mim eram todos do mesmo saco cultural e mental: os ditadores, venham de onde vierem, têm a mesma base amoral da lógica do poder e da morte, da destruição bárbara, são incultos e doentes mentais.

Agora imaginem a minha surpresa quando no liceu, pelos meus 16, 17 anos, deparei com o ambiente deprimente em que se defendiam personagens como Lenine, Estaline ou Mao Tsetung... Por ali planei nesse ano de 75 sentindo-me uma inadaptada, escapando à gritaria das RGAs e um dia até a uma invasão da Copcon a rodear o liceu de G3 na mão. Felizmente 76 trouxe o sossego dos Cívicos e voltei às origens por um ano. Quando regressei para a faculdade já os ânimos estavam mais calmos e só me esperava o desgosto de Camarate, em 80, o fim da esperança democrática.

 

A partir daí, a possibilidade de uma cultura verdadeiramente democrática, de uma democracia de qualidade (acesso universal a uma educação de qualidade; acesso a uma informação de qualidade e comunicação fiável e transparente; partilha de responsabilidade e participação cívica; justiça de qualidade; eficiência dos serviços; liberdade de concorrência; todos os equilíbrios que mantêm a democracia), foram sendo substituídos por uma cultura de clubismo partidário, de má utilização dos recursos públicos, de novo-riquismo cultural, do sucesso fácil, dos grupos favorecidos, de interesses ocultos, e de tudo o que já se diagnosticou até à exaustão e que permanece intocável.

 

Nunca votei PS. Votei AD de Sá Carneiro e Freitas do Amaral. Depois de Camarate, o PSD morreu para mim. O CDS foi o recurso para não votar em branco. Só voltei a estar perto de votar PSD com a política de verdade de Manuela Ferreira Leite, e depois talvez votasse no libertar o futuro de Paulo Rangel mas ganhou o Passos, e apostei n' este é o momento do CDS/PP.

 

Mal sabia eu, como já aqui disse, que este é o momento seria pior do que um banho de água fria, foi cair num buraco de água gelada num glaciar: como podia ter sido tão ingénua? Só porque falavam na agricultura e na supervisão bancária?

Mas não se atiraram agressivamente aos mais fracos da população, aos RSI? Com um discurso moralista à Estado Novo? De uma mesquinhez tacanha esquecendo que os feirantes e os pequenos negociantes de rua praticam uma economia paralela de subsistência perseguida pela ASAE dos moderanaços socialistas da altura, que os arrastaram para a subsidiodependência? A economia paralela de subsistência não é muito mais digna do que viver de subsídios estatais?

A verdadeira fuga ao fisco, a dos grandes grupos profissionais e empresariais está aí? Não está! Mas dessa não nos falaram.

Os sinais de um elitismo cultural, de desejo de pertença a uma classe de privilegiados, de um moralismo saudosista e tacanho, já estavam todos lá e eu não os consegui identificar.

 

Foi apenas quando assisti a esta cooperação de dois anos em que mantiveram um silêncio cúmplice e oportuno com um núcleo de gestão política (PM-ministro das finanças) que iniciou uma guerra de destruição maciça à economia, ao trabalho e à dignidade de vida dos cidadãos, que finalmente percebi e identifiquei a sua verdadeira cultura de base. Só alguém com uma cultura de base muito pouco democrática, para não dizer mesmo anti-democrática, poderia ter pactuado com este plano de desvalorização do trabalho e perseguição aos mais vulneráveis, mantendo intocáveis os grandes interesses e as excepções aos cortes. Fiquei sem partido em que votar, portanto. 

 

Qualquer cumplicidade estratégica com o núcleo PM-ministro das finanças será recordada na história do país.

Considerar-se agora que o CDS, depois de dois anos de cumplicidade com esta tragédia económica e social, pode agora surgir como um possível partido de coligação com o PS, por exemplo, é um atentado à nossa consciência cívica.

Vão primeiro aprender o que é a democracia de qualidade, e já agora como TPC:

a) tentar viver com o RSI ou o SMN;

b) sobreviver 6 meses na China rural, na Índia urbana, no Bangladesh fabril, para ver que modelo de economia competitiva nos estavam a preparar;

c) passar uns dias sem pequeno-almoço e ir para a escola ou ir à farmácia e ter de escolher entre que medicamentos levar para casa.

 

Quanto ao actual "novo rumo" do PS, terá de fazer um compromisso com os cidadãos e não configurar apenas uma forma airosa do sistema (o regime, as actuais elites no poder) se reorganizar novamente para tudo ficar na mesma paz podre

Como já aqui disse, terão de convencer os potenciais eleitores que podem confiar neles, que não serão traídos de novo.

Ainda estão por esclarecer as responsabilidades da gestão do anterior governo PS na situação financeira-limite a que se chegou há 2 anos.

Ainda está por perceber o papel dos mercados financeiros, do BCE (Constâncio foi promovido após não ter supervisionado nada), da banca (BPN), dos grandes grupos económicos, da CE, do PR, do PSD (Passos já andava a preparar a sua carreira no poder durante a liderança de Manuela Ferreira Leite), etc.

E finalmente ainda está por provar até que ponto a cultura de base deste "novo rumo" é um caminho de reabilitação para a tal democracia de qualidade.

Também vão precisar de apoios supra-nacionais, europeus e outros. Mas deverão manter os cidadãos devidamente informados do que está em causa, de forma frontal e com coragem, sem evasivas nem teatros. 

 

Quanto a possíveis coligações:

É melhor um governo com uma agenda limpa, clara e transparente, que vai gerindo o país com acordos parlamentares e negociações com representantes dos trabalhadores, empresários, industriais, etc. e com associações e movimentos da sociedade civil, do que se deixar enredar em jogos políticos que só debilitam a confiança dos cidadãos nos políticosRespeitar a inteligência de quem se representa é fundamental.

 

 

 

Para finalizar este post com uma amostra da inteligência distante, indiferente e metálica do núcleo que nos governou estes dois anos, de forma a melhor se perceber como se pode destruir com powerpoints e excell, trago aqui uma cena de um filme que já tinha colocado na Farmácia Central. Através desta cena vão perceber melhor como funciona a cabeça do protótipo tecnocrata, seja o ministro das finanças seja um elemento da troika, do FMI, da CE. A distância emocional e monocórdica são próprias de uma inteligência artificial só comparável a um robô:

 

 

 

Nota de esclarecimento em 2 de Junho de 2014: Este ano vi tanta coisa que era inevitável uma mudança na minha perspectiva do grande plano. O mesmo é dizer que não fica incólume a tanto atropelo à justiça, à equidade, ao equilíbrio de poderes, a uma cultura democrática, ao simples e saudável bom senso. O impacto de tudo a que assisti com este governo-troika foi tal que posso mesmo dizer que fiquei vacinada de forma vitalícia contra o centro direita. Ou se tem uma cultura democrática ou não se tem, ou se têm valores cristãos ou não se têm. O centro direita ou direita ao centro é um tremendo equívoco cultural e político.

Foi também a observar as personagens actualmente no poder que fiquei esclarecida relativamente à minha visão idílica da primavera marcelista: sim, havia católicos progressistas e intelectuais com uma visão mais aberta do mundo, mas o sistema estava blindado como este está actualmente e não se iria abrir a uma democracia como cheguei a idealizar.

Dá-me a sensação que terei ainda de introduzir muitas notas de esclarecimento em diversos posts sobre assuntos-chave. Não quero contribuir para mais equívocos culturais, mesmo que se trate apenas de uma análise individual. 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:25

As mulheres e o seu papel fundamental nos valores culturais de uma comunidade

Domingo, 05.05.13

  

Este post é dedicado às mulheres, às mulheres que seguem os valores da verdadeira responsabilidade por si próprias, pela defesa do seu lugar e papel numa comunidade e país, na forma como lidam com os mais próximos, pelos valores que transmitem aos filhos.

 

Contrariamente ao que se julga, aceitar a própria vulnerabilidade e desamparo, é o primeiro passo para a verdadeira autonomia. E é a forma saudável de não se deixar entalar no papel de vítima.

A vítima receia o agressor, é o medo que a transforma numa vítima.

Quando uma pessoa aceita a sua própria fragilidade e é capaz de ultrapassar a tentação de se identificar com os falsos heróis como compensação, torna-se mais forte e vacinada contra a vitimização (conformismo).

É na sua capacidade de empatia com os outros seus iguais no desamparo e na fragilidade, próprias da sua humanidade, que se torna mais forte e vacinada contra a lógica da violência, a sedução de discursos competitivos e bélicos, e distingue perfeitamente a mentira (artificialidade) da verdade (autenticidade).

 

A história está cheia de mulheres que seguiram a lógica do poder através do filho, incutindo-lhe os valores da cultura do egocentrismo, do culto do herói, da competição em que só o mais forte sobrevive. No fundo, o seu amor maternal é contaminado e adulterado pela manipulação, pela linguagem do poder. Assim se explica o sentimento de posse, o filho é um prolongamento de si, não é um ser livre.

Também o fazem através do exemplo que dão às filhas, de alguém que se rendeu à lógica do poder e o utiliza na forma em que se tornou especialista: na manipulação, no sentimento de posse. As filhas, também elas, se renderão ao culto do herói (e da heroína que o manipula).

Hoje vemos uma transição: enquanto as suas mães utilizaram a sua imagem (aprovação social) e culpabilizaram os homens e filhos de não serem suficientemente homens, de não conseguirem a tal promoção, etc, exibindo o homem e os filhos como troféus, as suas filhas levaram esta cultura mais longe utilizando-a na promoção da sua carreira profissional, mimetizando o papel competitivo masculino.

 

Se estas foram as únicas possibilidades de sobrevivência das mulheres num mundo masculino? Certamente. Mas será que hoje a lógica do poder e da manipulação são formas saudáveis de afirmação do papel da mulher?

Lembrar que hoje temos um lugar e um papel na comunidade, podemos intervir e participar, porque muitas mulheres se colocaram em perigo e foram afirmando a sua voz sem seguir a lógica do poder, sem perder a capacidade de empatia e compaixão.

As mulheres podem participar numa mudança cultural profunda, tal como esta corajosa advogada iraniana Shirin Ebadi:

 

 

 

 

As mulheres podem perpetuar a linguagem do poder masculina através da influência cultural sobre os filhos, nos rapazes sobretudo, mas também nas filhas, ou podem romper com essa lógica dominante e cultivar a cultura da colaboração, do respeito por si próprio e pelo outro, da empatia e compaixão, da verdadeira autonomia.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:42

A responsabilidade da possibilidade de um "novo rumo" para o país

Segunda-feira, 29.04.13

 

Gostaria de analisar alguns acontecimentos nacionais recentes em termos políticos (as decisões, a intervenção, o poder), económicos (a vitalidade, a substância, a base) e sociais (os grupos, as comunidades, os cidadãos).

 

Com0 vimos, as comemorações do 25 de Abril revelaram algumas fragilidades do sistema e uma nova fronteira cultural: os que estão do lado da lógica da austeridade (do lado financeiro, do lado dos mais fortes, cultura corporativa) e os que estão do lado da negociação (do lado da economia, do lado dos mais fracos, cultura da colaboração).

Esta fronteira não se pode definir apenas por partidos de direita ou de esquerda, essa já é uma divisão artificial, é essencialmente uma questão cultural mais profunda, tem a ver com a acção de cada um. É pela acção (o que faz, o seu exemplo) que cada um reflecte os seus valores e princípios.  

Na cultura corporativa (linguagem do poder), por exemplo, não temos apenas os que defendem os seus privilégios e excepções, temos igualmente os que acreditam que só alguns podem ter acesso à qualidade de vida e querem pertencer a esse grupo (conformismo).

Na cultura da colaboração, do mesmo modo, podemos vir a encontrar pessoas em lugares de responsabilidade que perceberam que só com a mobilização de muitos, cada um no seu papel, com o seu talento e criatividade, temos a possibilidade da animação da economia (a vitalidade de um país), a redução da dívida pública e a autonomia.

 

 

E agora o congresso do PS, que me surpreendeu pelo profissionalismo:

 

Gosto de ver um trabalho bem feito, do rigor, da dedicação. E foi o que vi neste congresso do PS. Um espaço simples e arejado, com as cores certas, a música de fundo certa, as bandeiras do país em vez das bandeiras partidárias. A expressão "um novo rumo" sintetiza todo um projecto. Outra expressão "as pessoas primeiro". Vemos já aqui, antes mesmo dos oradores subirem ao palco, uma mensagem clara: trata-se do país, das pessoas concretas. Este congresso é para o país e para as pessoas.

 

- Os apoios internacionais são fundamentais para se validar um projecto, para ser percebido como viável, para ser apresentado como uma nova  onda europeia. Isso foi conseguido.

- A afirmação de uma equipa coesa ficou, para já, conseguida. Mas esta é, como veremos, uma das condições mais delicadas. É assim que se garante a coerência e a consistência de um projecto. 

- Uma mensagem política implica autenticidade (verdade) e responsabilidade (realidade). Os dois discursos do secretário-geral, baseados na observação da realidade, nos resultados da lógica da austeridade, e propondo iniciativas viáveis, foram adequados. E sobretudo o tom de entusiasmo, afectivo, da abrangência e da tolerância. Passou a mensagem de estar atento, de acolhimento e de um caminho possível se todos quiserem: "um novo rumo" e "as pessoas primeiro".

- "Inteligência" foi uma palavra utilizada e muito bem aplicada. Raramente os políticos a utilizam para fundamentar as suas decisões, assim como a humildade de avaliar os resultados de algumas decisões e mudar.

- A insistência na economia e no trabalho, "as pessoas primeiro", a vitalidade de um país e a sua viabilidade. O valor do trabalho na prioridade emprego, emprego, emprego. As empresas como os motores da economia, as áreas produtivas.

- A coesão territorial também muito importante. A proximidade dos serviços aos cidadãos.

- Salvar o núcleo do Estado Social: a saúde e a educação. Não destruir o que de melhor se construiu. Melhorar a sua eficiência.

- A abertura à colaboração de todos os enquadramentos políticos, de todos os grupos da concertação social, de todas as associações e movimentos (a tal colaboração políticos - sociedade civil). E sim, concordo que essa abertura se mantenha mesmo que venham a conseguir uma maioria absoluta. 

- Outro aspecto fundamental para credibilizar os políticos e a representação política partidária: os políticos como exemplo cívico, de uma democracia de qualidade.

- Também o respeito institucional, o respeito pelos órgãos de soberania, mesmo que se discorde das suas decsões.

Estava lá tudo, sem dúvida.

 

 

Em relação à coesão interna:  esta é a parte mais delicada como disse atrás, e a mais importante, porque é a base da possibilidade da concretização de todo o projecto que já se pôs em movimento. A equipa une-se desta vez à volta de um desafio para o país, de um projecto maior do que qualquer grupo partidário, e já não (como antes) à volta de um líder político, de uma personalidade (culto da figura do herói, como o ex-PM). Alguns egos políticos parecem ainda não ter interiorizado a cultura da colaboração que se quer iniciar. A tentação de emergirem de novo, de insistirem nos velhos hábitos (agressividade de discurso contra o governo ou o PR, afirmação competitiva face a outros partidos), pode estragar a mensagem que se quer transmitir para mobilizar todos e cada um, e acabar por boicotar esse projecto.

 

 

Espero que esta equipa tenha bem consciente a responsabilidade de ter criado a expectativa da possibilidade de "um novo rumo" para o país, nas pessoas que têm sido massacradas com mais cortes previstos e que têm vivido estes dois últimos anos a angústia de serem os próximos a ficar sem trabalho.

Esta responsabilidade é enorme, exige o envolvimento de toda a equipa e dos que se juntarem a essa onda, diariamente.

Já vimos como muitos projectos promissores terminam por nos decepcionar devido à cultura de base dos seus elementos e à atracção de oportunismos vários, sempre que surge a vitalidade de um trabalho bem feito e da dedicação de alguns.

 

Desejar-lhes boa sorte é tudo o que posso dizer. Apreciei o seu trabalho, conseguiram surpreender-me e isso não é fácil: já cá ando há muito tempo a observar e a registar, e sinceramente, apenas fui permeável às mensagens políticas de Sá Carneiro e, muitos anos mais tarde, dos Estados Gerais de Guterres, da política de verdade de Manuela Ferreira Leite e, mais recentemente, de Este é o momento de Paulo Portas. Já vimos que todos eles duraram muito pouco, engolidos por outras agendas políticas dominantes.

Hoje só um projecto abrangente que mobilize a sociedade civil pode lidar com os desafios que a actual lógica dominante na Europa e no mundo financeiro nos quer impor.

 

 

Quanto à variável Europa, inserida nos discursos e que não depende de nós (embora uma onda de vários países já possa contar), considero fundamental - e já que o Presidente resolveu falar do pós-troika - que, além de se fazer a ginástica possível com os constrangimentos da dívida e da moeda única, se comece a preparar uma possível saída do euro. As duas hipóteses estão já a 50-50.

 

Falar de federalismo europeu é necessário para não assustar alguns cá dentro e lá fora, mas... cá para nós (e poucos Viajantes passam neste cantinho), isso já não é possível.

Depois dos cidadãos europeus, sobretudo os do sul e do sudeste, terem percebido o que os gestores do poder político e financeiro e alguns cidadãos de países do norte estão dispostos a fazê-los penar (sem casa, ausência de cuidados de saúde, sem acesso à educação, fome), acham mesmo que embarcam nessa armadilha? Acham mesmo que depois desta violência, porque há muitas formas de violência, os cidadãos embarcam em mais um projecto maníaco e perverso como esse?

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:12

Aproximação partidos políticos - sociedade civil: alguns equívocos culturais

Sexta-feira, 26.04.13

 

O dia de ontem ainda nos traria mais uma surpresa e igualmente no programa Política Mesmo da tvi 24: uma entrevista de Paulo de Magalhães a uma das figuras conhecidas na segunda fase do anterior governo PS: João Tiago Silveira. Lembram-se dele? Um rosto redondo de menino de coro que ficava sempre a sorrir por detrás dos protagonistas? Aquele que serviu de nova imagem do anterior governo PS e que vinha apresentar as novas medidas? 

Pois bem, parece que o entrevistado entregou uma carta ao Presidente do partido, juntamente com um grupo de outros militantes, com uma proposta de aproximação do partido à sociedade civil, para fazer pontes e abrir o partido à participação e colaboração dos cidadãos-eleitores.

Parece que esta proposta ainda não foi aceite para apresentar neste Congresso e compreende-se porquê:

 

Esta não é uma proposta credível de abertura à participação e colaboração da sociedade civil, porque se preocupa essencialmente com a abertura à participação dos cidadãos em eleições de candidatos à liderança do partido, assim como à possibilidade de votar em propostas e de apresentar petições em congressos.

Surge-nos assim de novo a marca registada do marketing político do anterior governo PS, o tal das propostas fracturantes (o entrevistado vai desfiando o seu rosário), a marca de uma cultura populista, que vive à volta da figura do líder, da imagem, da fama, do herói.

Esta marca registada revela-se própria de uma sociedade de espectáculo, da trash culture, do circo político: telemóveis em riste, marque o nº 70721 se quer o candidato A, marque o nº 70722 se quer o candidato B, tal como os Ídolos.

Esta proposta é muito à frente no séc. XXI, muitos filmes de ficção científica já anteciparam este circo global, a confusão geral onde ninguém se responsabiliza por nada nem ninguém pode ser responsabilizado. É eleito o mais popular, mesmo que pelas piores razões.

Onde está o espaço da reflexão?, da avaliação do perfil dos candidatos?, dos valores defendidos pelo partido?, do compromisso?, da verdade?, da qualidade e viabilidade das propostas?

 

O entrevistado só acertou na constatação da realidade actual: há realmente um fosso crescente entre os políticos e o eleitorado, entre o sistema partidário e a sociedade civil. Só que se esqueceu de dizer que a responsabilidade desse afastamento é dos partidos políticos, da sua actuação, do comportamento dos seus responsáveis e restantes elementos, da degradação a que chegaram, ética, moral e cívica, da governação política incompetente e da gestão ruinosa.

De facto, vemos a decadência dos partidos, como estão descredibilizados, desactualizados e obsoletos.

A frescura, a vitalidade e a criatividade estão do lado da sociedade civil.

 

Mas voltemos à proposta:

Se o entrevistado lesse uns livros de história política ficaria esclarecido e veria que essa aproximação à sociedade civil depende do partido arrumar a casa primeiro, como passo a explicar:

Partido = partido, subdividido em subgrupos, incoerências internas, indefinição do projecto, competição pelos lugares;

Arrumar a casa =  debater e reflectir, avaliar os erros cometidos, assumir as suas responsabilidades, mudar de estratégia. (Arrumar a casa não é varrer para debaixo do tapete como foi feito naqueles 4 meses providenciais entre o abandono de Guterres e o catapultar do ex-PM-actual-comentador-político.)

 

Mas o que é que os cidadãos vêem acontecer? Passar uma esponja sobre o passado e virar todas as munições contra os adversários, os outros partidos e as instituições do sistema.

 

 

Uma aproximação partidos políticos - sociedade civil implica uma alteração cultural profunda dos políticos, do seu comportamento, da lei eleitoral, da representatividade dos deputados na AR, da responsabilização dos gestores políticos por erros cometidos (competência), pela gestão danosa de dinheiros públicos (justiça). A confiança depende da verdade, da informação correcta e actualizada, da participação cívica diária.

 

Portanto, antes de se abrir à participação e colaboração da sociedade civil, o partido A ou B deve primeiro definir-se:

- a sua identidade, a sua cultura, os seus valores e princípios, o seu centro, a sua bússula, o que permanece intacto apesar das mudanças conjunturais;

- essa identidade (o essencial) deve ser coerente e consistente, e percebida, aceite e interiorizada pelos gestores políticos e pelas suas bases;

- essa identidade (o essencial) é a carta de apresentação à sociedade civil, no logotipo, no site, no discurso e na intervenção pública;

- o comportamento dos seus elementos deve respeitar essa identidade essencial (coerência e consistência) e ser um exemplo cívico (credibilidade).

 

A seguir vem o projecto conjuntural, a estratégia, que deve ser adequada à realidade, além de inteligente, viável e criativa.

A estratégia deve considerar prioridades bem definidas e o teste prévio da eficácia da intervenção proposta (o que implica ter bases de sustentação, apoios internacionais, fazer o trabalho de casa).

Na interacção com os outros partidos e com todos os responsáveis políticos, sociais, financeiros e económicos, deve revelar abertura e receptividade à negociação sempre que existir uma proposta concreta. E fazer a promoção das suas propostas, com entusiasmo e convicção, resistindo a opiniões e comentários críticos e/ou provocadores. O que interessa são as propostas, viabilizá-las. É isso que ficará registado na história, os resultados, o que funciona.

 

Ganhar a confiança dos cidadãos é um processo que exige muito trabalho diário e muita paciência, ir juntando pontos de credibilização até começar a ser percebido pela sociedade civil como grupo e como equipa consistente e credível.

Estes pontos ou créditos de confiança implicam uma informação correcta da realidade (verdade) e um comportamento coerente e consequente (o exemplo cívico).

 

Como vimos, são os partidos que terão primeiro de fazer o trabalho de casa. Quando forem percebidos como credíveis, a aproximação da sociedade civil, a participação cívica e a colaboração cívica, far-se-á naturalmente.

 

Hoje, com a comunicação facilitada e quase universalizada, os cidadãos já podem dar ideias e propor mudanças nos sites dos diversos partidos. É só enviar um e-mail ou fazer um comentário. Mas terá de haver espaço para um debate sério, não para o ruído da confusão geral e populista.

 

 

 

Nota: Gostava de, um dia destes, analisar os movimentos cívicos e como se estão a tornar cada vez mais activos e eficazes. 

Alguns já tentaram constituir-se como partidos políticos, entrando no sistema partidário e eleitoral. Resultados? Vantagens?

Para já, enquanto se mantiverem os equívocos culturais actuais, a lei eleitoral, o nº excessivo de deputados, a sua distância relativamente a quem os elege (representatividade), vejo como pouco vantajosa essa formalização.

 

 

Nota de esclarecimento a 2 de Junho de 2014: Muita coisa se passou neste país neste último ano. A nossa democracia foi-se fragilizando com o governo-troika e, com a opção presidencial por um apoio incondicional ao governo-troika, hoje já não se pode falar de um equilíbrio de poderes porque está tudo desequilibrado, e sempre que o tribunal constitucional dá pareceres é logo chantageado, e isto em cima de cidadãos mssacrados com impostos e cortes, despedimentos, ausência de perspectivas futuras.

Já não se ouve falar de um provedor de justiça, a figura desapareceu?, nem da procuradoria-geral da República, nem propriamente de Justiça. Talvez por isso os rsultados das eleições europeias tenham vindo abanar o status quo, de tal modo que surgiram dois novos factos políticos: o MPT com Marinho Pinto capitalizou votos de descontentes e desanimados, e no PS deu-se a invasão socrática, apoiada pelos media e com a expectativa tácita dos que defendem um consenso nacional, um bloco central digamos, o balão de oxigénio do sistema.

É neste novo contexto da existência de um desequilíbrio de poderes e da tentativa do sistema se proteger de uma nova configuração da AR nas próximas legislativas, blindando-se num bloco central, que procurei analisar de novo a proposta de primárias abertas para escolher o candidato a líder do partido, apresentado por Tiago Silveira e que, neste post, considerei populista, a não ser que se procedesse a uma revisão da actual lei eleitoral. Pois bem, o assalto ao poder do Presidente da Câmara de Lisboa baseia-se na pretensão de conseguir mais votos para o PS do que os obtidos por Seguro nas eleições europeias. Não se trata de debater um projecto que faça frente ao novo rumo com o qual parecia estar de acordo, não, é apenas uma questão de popularidade. Sendo assim, a única forma de provar que sim, está melhor colocado para obter mais votos, é em primárias abertas.

Esta invasão socrática acabou por despertar de novo, numa parte do PS, esta aproximação aos cidadãos. É esta a parte positiva, a meu ver, a possibilidade de liderarem uma revisão eleitoral que torne a AR mais representativa. E a proposta foi mais longe: a redução a 180 deputados. Se esta linha regeneradora do PS for a vencedora nas primárias, o PS será o partido tradicional a revelar mais vitalidade e criatividade.

Claro que a democracia incomoda muita gente, a possibilidade inovadora dos cidadãos participarem na vida colectiva, isto é, uma democracia mais representativa e participativa é uma amaeaça para as elites no poder há décadas, o rotativismo garantido, o controle da máquina estatal e da administração pública, das empresas públicas e público-privadas, as fundações, as decisões opacas, a alienação de recursos estratégicos, as promessas à troika. Prevêem-se portanto muitas reacções, com o apoio dos media, sobretudo nos canais televisivos, onde estão os políticos comentadores estrategicamente colocados para a propaganda semanal.

Este episódio no PS exemplifica o estado actual da nossa democracia. Podemos mesmo dizer que se trata de uma autêntica "luta de classes", uma jornalista que entrevistou Seguro até insistia que do lado do seu adversário estavam muitos "notáveis" A resposta foi certeira: a democracia é fantástica, uma pessoa um voto.  

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:03








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